O Duelo.
Há crime no homicídio em duelo; a vossa própria legislação o reconhece. Ninguém tem o direito, em caso algum, de atentar contra a vida de seu semelhante: é um crime aos olhos de Deus, que vos traçou a linha de conduta que tendes de seguir. Nisso, mais do que em qualquer outra circunstância, sois juízes em causa própria. Lembrai-vos de que somente vos será perdoado, conforme perdoardes; pelo perdão vos acercais da Divindade, pois a clemência é irmã do poder. Enquanto na Terra correr uma gota de sangue humano, vertida pela mão dos homens, o verdadeiro reino de Deus ainda se não terá implantado aí, reino de paz e de amor, que há de banir para sempre do vosso planeta a animosidade, a discórdia, a guerra. Então, a palavra duelo somente existirá na vossa linguagem como longínqua e vaga recordação de um passado que se foi. Nenhum outro antagonismo existirá entre os homens, afora a nobre rivalidade do bem.
Marmande, 1861.
12. O duelo pode, sem dúvida, em certos casos, constituir uma prova de coragem física, de desprezo pela vida, mas é incontestavelmente uma prova de covardia moral, como no suicídio. O suicida não tem coragem de enfrentar as vicissitudes da vida: o duelista não tem a de enfrentar as ofensas. Não vos disse o Cristo que há mais honra e coragem em oferecer a face esquerda àquele que bateu na direita do que em vingar-se de uma injúria? Não disse o Cristo a Pedro, no jardim das Oliveiras: ‘Mete a tua espada na bainha, pois aquele que matar pela espada perecerá pela espada? Por essas palavras, Jesus não condena para sempre o duelo? Efetivamente, meus filhos, que é essa coragem nascida de um temperamento violento, sanguíneo e colérico, que ruge à primeira ofensa? Onde está, então, a grandeza d’alma daquele que, à menor injúria, quer lavá-la no sangue? Mas que ele trema! Pois sempre, no fundo de sua consciência, uma voz lhe bradará: Caim! Caim! que fizeste de teu irmão? ‘Foi preciso sangue para salvar minha honra’, dirá ele a essa voz; mas ela lhe responderá: ‘Quiseste salvá-la perante os homens, pelos poucos instantes que te restavam de vida na Terra, e não pensaste em salvá-la perante Deus!’ Pobre louco! Quanto sangue, então, vos pediria o Cristo por todos os ultrajes que recebeu! Não só o feristes com o espinho e a lança, não só o atastes a um madeiro infamante, mas ainda, em meio de sua agonia, ele pôde ouvir as zombarias que lhe eram dirigidas. Que reparação, depois de tantos ultrajes, vos pediu ele? O último brado do cordeiro foi uma prece por seus algozes. Oh! como ele, perdoai e orai por aqueles que vos ofendem.
Amigos, lembrai-vos deste preceito: ‘Amai-vos uns aos outros’ e, então, ao golpe dado pelo ódio respondereis com um sorriso, e ao ultraje com o perdão. O mundo, sem dúvida, se levantará furioso e vos tratará de covardes; erguei a cabeça bem alto e mostrai então que vossa fronte também não temeria cingir-se de espinhos, a exemplo do Cristo, mas que vossa mão não quer ser cúmplice de um assassínio autorizado por uma falsa aparência de honra, que não passa de orgulho e amor-próprio. Ao criar-vos, Deus vos deu o direito de vida e de morte uns sobre os outros? Não, ele só deu esse direito à natureza, para reformar-se e reconstruir-se; mas a vós, nem sequer permitiu dispor de vós mesmos. Como o suicida, o duelista será marcado de sangue quando comparecer perante Deus, e a um e outro o Soberano Juiz reserva rudes e longos castigos. Se ele ameaçou com sua justiça aquele que chama seu irmão de ‘Raca’, quanto mais severa não será a pena para aquele que comparecer diante dele com as mãos avermelhadas pelo sangue de seu irmão!
Santo Agostinho.
Paris, 1862.
Ó estúpido amor-próprio, tola vaidade e louco orgulho, quando sereis substituídos pela caridade cristã, pelo amor do próximo e pela humildade que o Cristo exemplificou e preceituou? Só quando isso se der desaparecerão esses preceitos monstruosos que ainda governam os homens, e que as leis são impotentes para reprimir, porque não basta interditar o mal e prescrever o bem; é preciso que o princípio do bem e o horror ao mal morem no coração do homem.
Bordéus, 1861.
Quando a caridade regular a conduta dos homens, eles conformarão seus atos e palavras a esta máxima: “Não façais aos outros o que não quiserdes que vos façam.” Em se verificando isso, desaparecerão todas as causas de dissensões e, com elas, as dos duelos e das guerras, que são os duelos de povo a povo.
Bordéus, 1861.
15. O homem do mundo, o homem feliz, que, por uma palavra ofensiva, uma causa ligeira, joga sua vida, que recebeu de Deus, joga a vida de seu semelhante, que só a Deus pertence, esse é cem vezes mais culpado do que o miserável que, impelido pela cupidez, algumas vezes pela necessidade, se introduz numa habitação para ali furtar aquilo que cobiça e mata aqueles que se opõem ao seu intento. Este último é quase sempre um homem sem educação, tendo apenas noções imperfeitas do bem e do mal, enquanto o duelista pertence quase sempre à classe mais esclarecida; um mata brutalmente; o outro, com método e polidez, o que faz com que a sociedade o desculpe. Acrescento mesmo que o duelista é infinitamente mais culpado do que o desgraçado que, cedendo a um sentimento de vingança, mata num momento de exasperação. O duelista não tem por escusa o impulso da paixão, pois, entre o insulto e a reparação, ele sempre tem tempo para refletir; age, portanto, friamente e com propósito premeditado; tudo é calculado e estudado para matar com maior segurança o seu adversário. É certo que também expõe sua vida, e é isso que reabilita o duelo aos olhos do mundo, porque nele se vê um ato de coragem e um desprezo pela própria vida; mas haverá verdadeira coragem quando se está seguro de si? O duelo, remanescente dos tempos de barbárie, em que o direito do mais forte fazia a lei, desaparecerá com uma apreciação mais sã do verdadeiro ponto de honra e à medida que o homem tiver uma fé mais viva na vida futura.
Agostinho.
Bordéus, 1861.
O Espiritismo apagará esses últimos vestígios da barbárie, incutindo nos homens o espírito de caridade e de fraternidade.