Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — 1868

Allan Kardec

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Correspondência inédita de lavater com a imperatriz Maria da Rússia


Os espíritas são numerosos em São Petersburgo, e entre eles há homens sérios muito esclarecidos, que compreendem o objetivo e o alto alcance humanitário da doutrina. Um deles, que não tínhamos a honra de conhecer, houve por bem mandar-nos um documento, tanto mais precioso para a história do Espiritismo, quanto era desconhecido e toca nas mais altas regiões sociais. Eis o que diz o nosso honrado correspondente, na carta de remessa:

“A biblioteca imperial de São Petersburgo publicou, em 1858, num pequeno número de exemplares, uma coletânea de cartas inéditas do célebre fisionomista Lavater. Essas cartas, até agora desconhecidas na Alemanha, foram dirigidas à Imperatriz Maria da Rússia, esposa de Paulo I e avó do imperador reinante. A leitura dessas cartas me chocou pelas ideias filosóficas eminentemente espíritas que encerram, sobre as relações que existem entre o mundo visível e o mundo invisível, a mediunidade intuitiva e a influência dos fluidos que a produzem.

“Presumindo que essas cartas, provavelmente desconhecidas na França, poderiam interessar aos espíritas esclarecidos desse país, mostrando-lhes que suas convicções eram partilhadas pelo eminente filósofo suíço e duas cabeças coroadas, tomo a liberdade, senhor, de vos remeter anexa a tradução exata quase literal dessas cartas, que talvez julgueis oportuno inserir na vossa sábia e tão interessante publicação mensal.

“Aproveito a ocasião, senhor, para vos exprimir os sentimentos de minha profunda e perfeita estima, partilhada pelos espíritas sinceros de todos os países, que sabem dignamente apreciar os serviços eminentes que vosso zelo infatigável prestou ao desenvolvimento científico e à propagação da sublime e tão consoladora Doutrina Espírita. Esta terceira revelação terá como consequência a regeneração, o progresso moral e a consolidação da fé na pobre Humanidade, infelizmente desencaminhada, e que flutua entre a dúvida e a indiferença em matéria de religião e de moral.”

W. de F.

Publicamos integralmente o manuscrito do Sr. de F. Sua extensão obriga-nos a dele fazer o objeto de três artigos.



Preâmbulo



No castelo do grão-duque de Pawlowsk, situado a vinte e quatro verstas de Petersburgo, onde o imperador Paulo da Rússia passou os mais felizes anos de sua vida, e que, com o tempo, tornou-se a residência favorita da imperatriz Maria, sua augusta viúva, verdadeira benfeitora da Humanidade sofredora, acha-se uma seleta biblioteca, fundada pelo casal imperial, na qual, entre muitos tesouros científicos e literários, se acha um pacote de cartas escritas de próprio punho por Lavater, que ficaram desconhecidas dos biógrafos do célebre fisionomista.

Essas cartas são datadas de Zurique, em 1798. Dezesseis anos antes, em Zurique e em Schaffouse, Lavater tinha tido ocasião de travar o primeiro contato com o conde e a condessa do Norte (título sob qual o grão-duque da Rússia e sua esposa viajavam pela Europa), e, de 1796 a 1800, ele mandava para a Rússia, endereçadas à Imperatriz Maria, reflexões sobre a fisionomia, às quais juntava cartas, tendo por objetivo descrever o estado da alma depois da morte.

Nessas cartas, Lavater toma como ponto de partida que uma alma, tendo deixado o seu corpo, inspira ideias a um homem de sua escolha, apto para a luz (lichtfaehig) e faz com que ele escreva cartas dirigidas a um amigo que ficou na Terra, para instruí-lo sobre o estado em que ela se encontra.

Essas cartas inéditas de Lavater foram descobertas durante uma revisão da biblioteca grão-ducal, pelo Dr. Minzloff, bibliotecário da Biblioteca Imperial de Petersburgo e por ele postas em ordem. Com a autorização do atual proprietário do castelo de Pawlowsk, S. A. I., o grão-duque Constantino, e sob os auspícios esclarecidos do barão de Korff, atualmente membro do conselho do império, antigo diretor chefe dessa biblioteca, que lhe deve seus mais notáveis melhoramentos, elas foram publicadas em 1858, em Petersburgo, sob o título: Johann-Kaspar Lavarter’s briefe, an die kaïserin Maria Feodorowna, gemahin kaïser Paul I von Russland (Cartas de Jean-Gaspard Lavater à imperatriz Maria Feodorowna, esposa do imperador Paulo I da Rússia). Essa obra foi impressa por conta da biblioteca imperial e dedicada ao senado da Universidade de Iena, por ocasião do 300º aniversário de sua fundação.

Essas cartas, em número de seis, apresentam o mais alto interesse, porque provam positivamente que as ideias espíritas, e notadamente as possibilidades de relações entre o mundo espiritual e o mundo material, germinavam na Europa há setenta anos, e que não só o célebre fisionomista tinha a convicção dessas relações, mas que ele próprio era o que no Espiritismo se chama médium intuitivo, isto é, um homem que recebia por intuição as ideias dos Espíritos e transcrevia suas comunicações. As cartas de um amigo morto, que Lavater havia juntado às suas próprias, são eminentemente espíritas. Elas desenvolvem e esclarecem de maneira tão engenhosa quanto espirituosa, as ideias fundamentais do Espiritismo, e vêm em apoio a tudo o que esta doutrina oferece de mais racional, de mais profundamente filosófico, religioso e consolador para a Humanidade. As pessoas que não conhecem o Espiritismo poderão supor que essas cartas de um Espírito ao seu amigo da Terra não são senão uma forma poética que Lavater dá às suas próprias ideias espiritualistas; mas os que são iniciados às verdades do Espiritismo as encontrarão nessas comunicações, tais quais elas foram e ainda são dadas pelos Espíritos, por meio de diversos médiuns intuitivos, auditivos, escreventes, falantes, extáticos etc. Não é natural supor que o próprio Lavater tenha podido conceber e expor com tão grande lucidez e tanta precisão, ideias abstratas e tão elevadas sobre o estado da alma após a morte e suas formas de comunicação com os Espíritos encarnados, isto é, com os homens. Essas ideias não podiam provir senão dos próprios Espíritos desencarnados. É indubitável que um deles, tendo guardado sentimentos de afeição por um amigo ainda habitante da Terra, lhe deu, por intermédio de um médium intuitivo (talvez o próprio Lavater fosse esse amigo), noções sobre esse assunto, para iniciá-lo aos mistérios do túmulo, na medida que é permitido a um Espírito desvendar aos homens, e que estes estejam em estado de compreender.

Damos aqui a tradução exata das cartas de Lavater, escritas em alemão, bem como das comunicações de além-túmulo, que ele dirigia à imperatriz Maria, conforme o desejo que ela havia expresso, de conhecer as ideias do filósofo alemão sobre o estado da alma após a morte do corpo.


Primeira Carta

SOBRE O ESTADO DA ALMA APOS A MORTE


Ideias gerais


Mui venerada Maria da Rússia!

Dignai-vos conceder-me permissão para não vos dar o título de majestade, que vos é devido da parte do mundo, mas que não se harmoniza com a santidade do assunto acerca do qual desejastes que eu vos entretivesse, a fim de que eu possa escrever com franqueza e inteira liberdade.

Desejais conhecer algumas das minhas ideias sobre o estado das almas após a morte.

A despeito do pouco que é dado saber sobre isto ao mais sábio e ao mais douto entre nós, porquanto nenhum dos que partiram para o país desconhecido de lá voltou, o homem pensante, o discípulo daquele que do céu desceu entre nós, está, entretanto, em estado de dizer sobre isto, tanto quanto nos é necessário saber para nos encorajar, nos tranquilizar e nos fazer refletir.

Desta vez limitar-me-ei a vos expor, a respeito, algumas das ideias mais gerais.

Penso que deve existir uma grande diferença entre o estado, a maneira de pensar e de sentir de uma alma separada de seu corpo material, e o estado no qual se encontrava durante sua união com este último. Essa diferença deve ser ao menos tão grande quanto a que existe entre o estado de um recém-nascido e o de uma criança vivendo no seio materno.

Estamos ligados à matéria, e são os nossos sentidos e os nossos órgãos que dão à nossa alma as percepções e o entendimento.

Conforme a diferença que exista entre a construção do telescópio, do microscópio e dos óculos, de que se servem os nossos olhos para ver, os objetos que olhamos por seu intermédio nos aparecem sob uma forma diferente. Nossos sentidos são os telescópios, os microscópios e os óculos necessários à nossa vida atual, que é uma vida material.

Penso que o mundo visível deve desaparecer para a alma separada de seu corpo, assim como lhe escapa durante o sono. Ou então o mundo, que a alma entrevia durante sua existência corporal, deve aparecer à alma desmaterializada sob um aspecto completamente diferente.

Se, durante algum tempo, ela pudesse ficar sem corpo, o mundo material não existiria para ela. Mas se, logo depois de haver deixado o seu corpo ─ o que acho muito verossimilhante ─ ela for provida de um corpo espiritual, que teria retirado do seu corpo material, o novo corpo lhe dará indispensavelmente uma percepção muito diversa das coisas. Se, o que facilmente pode acontecer às almas impuras, esse corpo ficasse, durante algum tempo, imperfeito e pouco desenvolvido, todo o Universo apareceria à alma num estado de perturbação, como ele seria visto através de um vidro despolido.

Mas se o corpo espiritual, condutor e intermediário de suas novas impressões, fosse ou se tomasse mais desenvolvido ou melhor organizado, o mundo da alma lhe pareceria, conforme a natureza e as qualidades de seus novos órgãos, bem como segundo o grau de sua harmonia e de sua perfeição, mais regular e mais belo.

Os órgãos se simplificam, adquirem harmonia entre si e são mais apropriados à natureza, ao caráter, às necessidades e às forças da alma, conforme ela se concentre, se enriqueça e se depure aqui embaixo, perseguindo um só objetivo e agindo num sentido determinado. Existindo na Terra, a alma aperfeiçoa, por si mesma, as qualidades do corpo espiritual, do veículo no qual continuará a existir após a morte de seu corpo material, e que lhe servirá de órgão para conceber, sentir e agir em sua nova existência. Esse novo corpo, apropriado à sua natureza íntima, a tornará pura, amável, vivaz e apta a mil belas sensações, impressões, contemplações, ações e prazeres.

Tudo o que podemos, e tudo o que ainda não podemos dizer sobre o estado da alma após a morte, basear-se-á sempre sobre este único axioma, permanente e geral: O homem colhe o que semeou.

É difícil encontrar um princípio mais simples, mais claro, mais abundante e mais próprio a ser aplicado a todos os casos possíveis.

Existe uma lei geral da Natureza, estreitamente ligada, mesmo idêntica, ao princípio acima mencionado, no que concerne ao estado da alma após a morte, uma lei equivalente em todos os mundos, em todos os estados possíveis, no mundo material e no mundo espiritual, visível e invisível, a saber:

“O que se assemelha tende a se reunir. Tudo o que é idêntico se atrai reciprocamente, se não existirem obstáculos que se oponham à sua união.”

Toda a doutrina sobre o estado da alma após a morte é baseada neste simples princípio. Tudo quanto ordinariamente chamamos de julgamento prévio, compensação, felicidade suprema, danação, pode ser explicado desta maneira: “Conforme tenhas semeado o bem em ti mesmo, nos outros e fora de ti, pertencerás à sociedade daqueles que, como tu, semearam o bem em si mesmos e fora de si; gozarás da amizade daqueles aos quais te terás assemelhado em sua maneira de semear o bem.

Cada alma separada de seu corpo, livre das cadeias da matéria, aparece a si mesma tal qual é na realidade. Todas as ilusões, todas as seduções que a impediam de se reconhecer e de ver suas forças, suas fraquezas e seus defeitos, desaparecerão.

Ela experimentará uma tendência irresistível para se dirigir às almas que se lhe assemelham e afastar-se das que lhes são dessemelhantes. Seu próprio peso interior, como obedecendo à lei da gravitação, a atrairá para abismos sem fundo (pelo menos é assim que lhe parecerá); ou então, conforme o grau de sua pureza, lançar-se-á nos ares, como uma centelha levada por sua leveza, e passará rapidamente para as regiões luminosas, fluídicas e etéreas.

A alma se dá a si mesma um peso que lhe é próprio, por seu sentido interior; seu estado de perfeição a impele para a frente, para trás ou para o lado; seu próprio caráter, moral ou religioso, lhe inspira certas tendências particulares. O bom elevarse-á para os bons; a necessidade que ele sente do bem o atrairá para eles. O mau é forçosamente impelido para os maus. A queda precipitada das almas grosseiras, imorais e irreligiosas para junto das almas que se lhes assemelham, será também tão rápida e inevitável quanto a queda de uma bigorna num abismo, quando nada a detém.

É o bastante por esta vez.

Zurique, 1º de agosto de 1798.

JEAN-GASPAR LAVATER.

(Com a permissão de Deus, a continuação de oito em oito dias)



Segunda Carta


As necessidades experimentadas pelo espírito humano, durante seu exílio no corpo material, continuam as mesmas logo depois que o deixou. Sua felicidade consistirá na possibilidade de poder satisfazer suas necessidades espirituais; sua danação, na impossibilidade de poder satisfazer seus apetites carnais, num mundo menos material.

As necessidades não satisfeitas constituem a danação; sua satisfação constitui a felicidade suprema.

Eu gostaria de dizer a cada homem: “Analisa a natureza de tuas necessidades; dá-lhes o seu verdadeiro nome; pergunta-te a ti mesmo: são admissíveis num mundo menos material? Podem elas aí encontrar sua satisfação?” E se verdadeiramente aí puderem ser satisfeitas, serão daquelas que um Espírito intelectual e imortal poderia honestamente confessar e desejar a sua satisfação, sem sentir uma profunda vergonha ante outros seres intelectuais e imortais como ele?

A necessidade que sente a alma de satisfazer às aspirações espirituais de outras almas imortais; de lhes proporcionar os puros prazeres da vida; de inspirar-lhes a certeza da continuação de sua existência após a morte; de cooperar assim no grande plano da sabedoria e do amor supremos; o progresso adquirido por essa nobre atividade, tão digna do homem, assim como o desejo desinteressado do bem, dão às almas humanas a aptidão e, portanto, o direito de serem recebidas nos grupos e nos círculos de Espíritos mais elevados, mais puros, mais santos.

Mui venerada Imperatriz, quando temos a íntima persuasão de que a necessidade mais natural, e entretanto muito rara, que possa nascer numa alma imortal: a de Deus, a necessidade de dele se aproximar cada vez mais, sob todos os aspectos, e de se assemelhar ao Pai invisível de todas as criaturas, torna-se predominante em nós, oh! então não devemos experimentar o menor receio concernente o nosso estado futuro, quando a morte nos tiver desembaraçado de nosso corpo, esse muro espesso que nos ocultava Deus. Esse corpo material que nos separava dele é abatido, e o véu que nos ocultava a vista do mais santo dos santos é rasgado. O Ser adorável que amávamos acima de tudo, com todas as suas graças resplandecentes, terá então livre entrada em nossa alma dele faminta e o recebendo com alegria e amor.

Logo que o amor sem limites por Deus tiver predominado em nossa alma, por força dos esforços que tiver feito para dele se aproximar e a ele se parecer em seu amor vivificante da Humanidade, e por todos os meios que tinha em seu poder, essa alma, desembaraçada de seu corpo, passando necessariamente por muitos degraus para se aperfeiçoar sempre mais, subirá com uma facilidade e uma rapidez espantosas para o objeto de sua mais profunda veneração e de seu amor ilimitado, para a fonte inesgotável e a única suficiente para a satisfação de todas as suas necessidades, de todas as suas aspirações.

Nenhum olho fraco, doente ou velado, está em condições de olhar o Sol de frente; do mesmo modo, nenhum Espírito não depurado, ainda envolto no nevoeiro material de uma vida exclusivamente material, mesmo no momento de sua separação do corpo, não estaria em estado de suportar a vista do mais puro sol dos Espíritos, na sua claridade resplandecente, seu símbolo, seu foco, de onde emanam essas ondas de luz que penetram até mesmo os seres finitos com o sentimento de sua infinitude.

Quem melhor que vós, senhora, sabe que os bons não são atraídos senão pelos bons! Que só as almas elevadas sabem gozar da presença de outras almas de escol! Todo homem que conhece a vida e os homens, aquele que muitas vezes foi obrigado a encontrar-se na companhia desses zombadores desonestos, efeminados, faltos de caráter, sempre apressados em realçar e fazer valer a palavra mais insignificante, a menor alusão daqueles cujo favor disputam, ou então desses hipócritas que procuram astuciosamente penetrar as ideias alheias, para em seguida interpretá-las num sentido absolutamente contrário, aquele, digo eu, deve saber quanto essas almas vis e escravas de súbito se embaraçam a uma simples palavra pronunciada com firmeza e dignidade. Quanto apenas um olhar severo os confunde, fazendo-os sentir profundamente que os conhecem e que os julgam por seu justo valor! Como então se lhes torna penoso suportar a presença de um homem honesto! Nenhuma alma velhaca e hipócrita é feliz ao contato de uma alma proba e enérgica que a penetra. Cada alma impura, tendo deixado o seu corpo, deve, segundo sua natureza íntima, como impulsionada por uma força oculta e invencível, fugir da presença de todo ser puro e luminoso, para lhe ocultar, tanto quanto possível, a vista de suas numerosas imperfeições que ela não está em condições de ocultar a si própria, nem aos outros.

Mesmo que não tivesse sido escrito: Ninguém, sem ser depurado, poderá ver o Senhor, isto estaria perfeitamente na ordem das coisas. Uma alma impura se acha numa impossibilidade absoluta de entrar em qualquer tipo de relação com uma alma pura, bem como de sentir por ela a menor simpatia. Uma alma assustada pela luz não pode, por isto mesmo, ser atraída para a fonte da luz. A claridade privada de toda obscuridade deve queimá-la como um fogo devorador.

E quais são as almas, senhora, que chamamos impuras? Penso que são aquelas nas quais o desejo de se depurar, de se corrigir, de se aperfeiçoar, jamais predominou. Penso que são aquelas que não estão submetidas ao princípio elevado do desinteresse em todas as coisas; aquelas que se escolheram a si mesmas para centro único de todos os seus desejos e de todas as suas ideias; aquelas que se olham como o objetivo de tudo o que está fora delas; que não buscam senão o meio de satisfazer suas paixões e seus sentidos; aquelas, enfim, nas quais reinam o egoísmo, o orgulho, o amor-próprio e o interesse pessoal; que querem servir a dois senhores que se contradizem, e isto simultaneamente.

Semelhantes almas, penso eu, devem achar-se após a separação de seus corpos, no miserável estado de uma horrível contemplação de si mesmas; ou então, o que dá no mesmo, do desprezo profundo que sentem por si próprias, e serem arrastadas por uma força irresistível para a horrorosa companhia de outras almas egoístas, condenando-se elas próprias incessantemente.

É o egoísmo que produz a impureza da alma e a faz sofrer. Ele é combatido em todas as almas humanas por alguma coisa que lhe é contrária, algo de puro, de divino: o sentimento moral. Sem esse sentimento, o homem não é capaz de nenhum prazer moral, de nenhuma estima, de nenhum desprezo por si mesmo, e não compreende o Céu, nem o inferno. Esta luz divina lhe torna insuportável toda obscuridade que descobre em si, e é a razão pela qual as almas delicadas, aquelas que possuem o senso moral, sofrem mais cruelmente quando o egoísmo delas se apropria e subjuga esse sentimento.

Da concordância e da harmonia que subsistem no homem, entre ele próprio e sua lei interior, dependem sua pureza, sua aptidão para receber a luz, sua felicidade, seu céu, seu Deus. Seu Deus lhe aparece na sua semelhança consigo mesmo. Àquele que sabe amar, Deus aparece como o supremo amor, sob mil formas amantes. Seu grau de felicidade e sua aptidão para tornar os outros felizes são proporcionais ao princípio do amor que nele reina. Aquele que ama com desinteresse fica em harmonia incessante com a fonte de todo amor e com todos os que aí bebem o amor.

Procuremos conservar em nós o amor em toda a sua pureza, senhora, e seremos sempre arrastados por ele para junto das almas mais amantes. Purifiquemo-nos todos os dias, cada vez mais, das manchas do egoísmo, e então, ainda que tivermos de deixar este mundo hoje ou amanhã, devolvendo à terra o nosso envoltório mortal, nossa alma tomará o seu voo com a rapidez do relâmpago na direção do modelo de todos aqueles que amam, e reunir-se-á a eles com uma felicidade inexprimível.

Nenhum de nós pode saber em que se tornará a sua alma após a morte do corpo, contudo, estou plenamente persuadido que o amor depurado deve necessariamente dar ao nosso Espírito liberto do corpo, uma liberdade sem limites, uma existência cêntupla, um gozo contínuo de Deus, e um poder ilimitado para tornar felizes todos os que estão aptos a gozar a felicidade suprema.

Oh! Como é incomparável a liberdade moral do Espírito despojado de seu corpo! Com que rapidez a alma do ser amante, cercada de uma luz resplandecente, efetua a sua ascensão! Como a ciência infinita, como a força de se comunicar aos outros se tomam o seu apanágio! Que luz jorra dela mesma! Que vida anima todos os átomos de que é formada! Ondas de gozos se lançam de todos os lados ao seu encontro, para satisfazer suas necessidades mais puras e mais elevadas! Inumeráveis legiões de seres amantes lhe estendem os braços! Vozes harmoniosas se fazem ouvir nesses coros numerosos e radiantes de alegria e lhe dizem: “Espírito de nosso Espírito! Coração de nosso coração! Amor haurido na fonte de todo amor! Alma amante, tu nos pertences a nós todos, e nós somos todas tuas! Cada um de nós é teu e tu pertences a cada um de nós. Deus é amor e Deus é nosso. Estamos todos cheios de Deus e o amor encontra sua felicidade na felicidade de todos.”

Desejo ardentemente, mui venerada imperatriz, que vós, vosso nobre e generoso esposo, o imperador, tão dedicados um e outro para o bem, e eu convosco, possamos jamais não nos tornarmos estranhos ao amor que é Deus e homem ao mesmo tempo; que nos seja concedido nos prepararmos para os gozos do amor, por nossas ações, nossas preces e nossos sofrimentos, aproximando-nos daquele que se deixou pregar na cruz do Gólgota.

Zurique, 18 de agosto de 1798,

JEAN-GASPAR LAVATER.

(Continua proximamente, se Deus o permitir)

Já se pode ver em que ordem de ideias Lavater escrevia à imperatriz Maria, e até que ponto possuía ele a intuição dos princípios do Espiritismo moderno. Julgaremos melhor ainda pelo complemento dessa correspondência notável. Enquanto esperamos as reflexões com que a acompanharemos, julgamos conveniente, desde já, destacarmos um fato importante: é que para manter uma correspondência sobre semelhante assunto com a imperatriz, era preciso que esta partilhasse dessas ideias, e várias circunstâncias não permitem duvidar que o mesmo se passava com o czar, seu esposo. Era a pedido dela, ou melhor, a pedido de ambos, que Lavater escrevia, e o tom das cartas prova que ele se dirigia a pessoas convictas. Como se vê, as crenças espíritas, nas altas esferas, não datam de hoje. Aliás, pode-se ver, na Revista de abril de 1866, o relato de uma aparição tangível de Pedro o Grande a esse mesmo Paulo I.

As cartas de Lavater, lidas na Sociedade de Paris, determinaram uma conversação a propósito. Sem dúvida atraído pelo pensamento que na ocasião lhe era dirigido, Paulo I manifestou-se espontaneamente e sem evocação, por intermédio de um dos médiuns, ao qual ditou a seguinte comunicação:

(Sociedade de Paris, 7 de fevereiro de 1868 - Médium: Sr. Leymarie)

O poder é coisa pesada, e os aborrecimentos que deixa impressionam dolorosamente a nossa alma! Os desgostos são contínuos; há que conformar-se aos hábitos, às velhas instituições, ao preconceito, e Deus sabe quanta resistência é necessária para se opor a todos os apetites que vêm bater no trono, como ondas tumultuosas. Assim, que felicidade quando, deixando um instante essa túnica de Nessus chamada realeza, a gente pode encerrar-se num lugar pacífico, onde se pode repousar em paz, longe do ruído e do tumulto das ambições!

Minha querida Maria gostava da calma. Natureza sólida, suave, resignada, amorosa, ela teria preferido o esquecimento das grandezas para se votar completamente à caridade, para estudar as altas questões filosóficas que eram a mola propulsora de suas faculdades. Como ela, eu gostava desses recreios intelectuais; eles eram um bálsamo para as minhas feridas de soberano, uma força nova para me guiar no dédalo da política europeia.

Lavater, esse grande coração, esse grande Espírito, esse irmão predestinado, nos iniciava na sublime doutrina. Suas cartas, que hoje possuís, eram por nós esperadas com ansiedade febril. Tudo o que elas encerram era a miragem dos nossos ideais pessoais. Nós líamos essas cartas queridas com uma alegria infantil, felizes por depor a nossa coroa, a sua gravidade, a sua etiqueta, para discutir os direitos da alma, sua emancipação e seu curso divino para o eterno.

Todas essas questões, hoje causticantes, nós as aceitamos há setenta anos. Elas faziam parte de nossa vida, de nosso repouso. Muitos dos efeitos estranhos, aparições, ruídos, tinham fortalecido a nossa opinião a esse respeito. A imperatriz Maria via e ouvia os Espíritos; por eles ela tinha tomado conhecimento dos acontecimentos passados a grandes distâncias. Um príncipe Lopoukine, morto em Kiew, a centenas de léguas, tinha vindo nos anunciar sua morte, os incidentes que tinham precedido a sua partida, a expressão de suas últimas vontades. A imperatriz tinha escrito, ditado pelo Espírito de Lopoukine, e apenas vinte dias depois sabia-se na corte todos os detalhes que possuíamos. Eles foram para nós uma brilhante confirmação, e também a prova que Lavater e nós éramos iniciados às grandes verdades.

Hoje conhecemos melhor, por vós, a doutrina cuja base alargastes. Viremos pedir-vos alguns instantes e vos agradecemos antecipadamente, se tiverdes a bondade de escutar Maria da Rússia e este que teve o favor de tê-la por companheira.

PAULO I

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